domingo, 23 de outubro de 2011

Tarde


Foi tempo de mais
aquele em que me entreguei.

Foi tempo de mais
as manhãs que saíste a correr
e foi até tempo de mais
todas aquelas em que me despertaste.

Foi tempo de mais
a solidão que deixaste. 

Foi tempo de mais
as noites que partilhámos
nos braços um do outro
sem pressa.

Foi tempo de mais
todas as conversas e horas tardias.

Foi tempo de mais
o hoje
em que não estiveste.
E o ontem
que deixaste pra trás.

E foi tempo de mais
O tempo que me deixaste. 


                                          Carolina D'Ávila 

sábado, 22 de outubro de 2011

Hipocrisia

Triste
de quem se diz feliz
com os dias que correm.
E quem se diz absorvido
no ritmo do dia que voa
é certamente
um distraído feliz.
E quem se basta
com um estilo de vida confortável,
em que os dias correm sós
mas são confortávelmente passados,
é certamente
um egoísta feliz.
E quando acordamos na nossa vida confortável,
tomamos o café da manhã sozinhos,
deixámo-nos absorver por qualquer coisa,
e na noite adormecemos na exaustão do dia
sem ninguém para abraçar,
e ainda assim nos dizemos felizes.
Eu diria antes que
somos pessoas tristemente hipócritas.


                                                                 Sara Lamy
                                                                 (22/10/2011)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Orçamento 2012

Hoje o dia é de pesar nacional. Pouco há para escrever, já nos basta o que está a ser bombardeado de minuto a minuto nas rádios, televisões e jornais. Falta-me a inspiração, mas mais ainda falta-me a vontade de escrever. Por isso, gostaria apenas de deixar aqui um extracto do artigo de Pedro Santos Guerreiro, um jornalista que admiro imenso, no Jornal de Negócios desta manhã. Passo a citar:

"Nada disto é justo. Mas é o que sobra. A esperança e a dedicação. A solidariedade e a cooperação. O génio e o trabalho, quem o tem. Boa sorte. Vamos precisar dela. O pior é até à Primavera. Ainda estamos no Outono. E entre as duas está o Inferno".

Não diria nada melhor hoje. O dia é de poucas palavras. No fim, resta-nos crer que chegarão dias melhores.

domingo, 9 de outubro de 2011

Absolutocracia

Hoje nasce uma nova forma de governo: a absolutocracia. Um fenómeno exclusivamente verificável no arquipélago da Madeira. Esta forma de governo resulta da existência de uma "esmagador" consenso quanto à eleição de um determinado governante. Muitos gostariam de saber a "receita" de um dirigismo político tão legítimo e bem sucedido, mas mantém-se no segredo dos deuses, pois ao que parece este continua a ser um fenómeno isolado. O regime não é ditatorial, o dirigente faz questão de se eleger de forma "quase" democrática e a informação a que a população tem acesso é suficientemente oferecida pelo continente. Não obstante as eleições do dia de hoje mais se assemelharem às típicas de um dia de eleições num qualquer Estado africano em esforço de transição para um regime democrático. E se o que assisti há pouco no noticiário da noite fosse directamente transmitido do Burundi, eu não me admiraria. Mas em pleno séc.XXI, no arquipélago da Madeira, custa-me a acreditar! Contudo, como disse no início, a legitimidade desta forma de governo é "quase" uma verdade inabalável, portanto este senhor será uma presença certa nos advindos livros de Ciência Política, enquanto indivíduo dotado de uma retórica rara nos tempos que correm e de uma capacidade de persuadir massas fora do comum, um político notável, portanto. E que venham mais 4 anos como os últimos 33!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Comemorações do 5 de Outubro

    É um pouco tardio o que venho comentar, mas também gostaria que não passasse em branco, por isso refiro-o ainda hoje.
    Nas comemorações do dia 5 de Outubro podemos assistir a um enfático discurso presidencial em que mais do que mudar hábitos, o nosso Presidente quis mudar mentalidades. E a mim pouco me choca fazer paralelismos com discursos que caracterizaram o dirigente político da II República Portuguesa, António de Oliveira Salazar.
    Cavaco Silva frisou que a actual crise constitui uma "oportunidade para que os portugueses abandonem hábitos instalados de despesa supérflua... e cultivem estilos de vida  baseados na poupança e na contenção de gastos desmesurados".
      O Presidente lamentou ainda os anos perdidos na "letargia do consumo fácil e na ilusão do despesismo público e privado".
       Como é compreensível as gerações são reflexo das convicções e hábitos que marcam uma época, o Estado em que vivem, os dirigentes por quem são guiados, a cultura transmitida e implantada. E acima de tudo, os filhos são guiados pelos pais. Em épocas boas os pais não hesitam em mimar os filhos, em épocas más continuam a dar tudo o que podem e, por vezes, o que não convém. E, nessas alturas, só cá andam os nossos avós para nos contar histórias de outras épocas em que o Estado era rico, o dirigente era pobre e a lição de vida era dura!  

                                                                                             Sara Lamy
                                                                                              7/10/2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dura lex sed lex (para alguns)

Foi noticiado esta manhã que foram constituídos arguidos 6460 administradores e gestores de empresas com fundamento em não entrega de I.V.A. e das retenções correspondentes aos rendimentos dos trabalhadores. Deve ainda dizer-se que a constituição de arguidos duplicou no primeiro semestre do ano corrente face ao período homólogo do ano anterior, existindo um aumento de 104% do nº de arguidos constituídos. Este crime fundamenta-se numa apropriação indevida de um montante que deveria ser entregue ao Estado, numa conduta que deve provar-se dolosa para que constitua crime, podendo a pena aplicável ir até um tecto máximo de 5 anos de prisão. Após ter reflectido um pouco sobre tudo isto, não pude deixar de cruzar esta informação com uma notícia que vinha impressa no Diário Económico, em que a negrito se destacava o facto dos municípios somarem mais de 4 milhões de euros respectivos a pagamentos em atraso a fornecedores.No interior do jornal a notícia estendia-se entre títulos que diziam que mais de metade das câmaras têm dívidas em atraso, bem como se mencionavam alguns dos munícipios com maior prazo de incumprimento, destacando-se Porto Santo com um prazo médio para pagamento aos seus fornecedores de 1401 dias (ou seja, praticamente 4 anos). Devemos parar para reflectir. Um cidadão comum deve pagar no acto de compra do produto, não obstante as facilidades de pagamento que lhe podem ser dadas e que dependem exclusivamente da boa vontade ou da "falta de alternativa" do vendedor. O Estado tem, desde logo, o benefício de uma prazo de 90 dias para efectuar o pagamento aos seus fornecedores, o que lhe atribui uma posição de privilégio face aos particulares, estando ao que parece até no direito de proceder ao desiquilibrio dos balanços das empresas. A partir daqui já pouco importa se são 90 ou 1401 dias. Os fornecedores têm que ser compreensivos para com o Estado, especialmente quando se dirigem ao Serviço de Tesouraria da Câmara Municipal e nos respondem com prontidão que "O Estado não tem dinheiro" e, portanto, "tenha paciência" e "espere mais um bocadinho" já depois de ter esperado 1 ou 2 anos (e falo com conhecimento de causa). Pelo contrário, quando o fornecedor não paga os impostos devidos, talvez por força de toda a conjuntura actual, talvez porque existem clientes que não pagam a tempo e horas e principalmente porque o Estado toma a dianteira e dá o exemplo não cumprindo, mas o problema resolve-se facilmente, numa lógica um pouco paradoxal: não entregam o dinheiro que pertence ao Estado, logo existiu uma apropriação indevida, logo são criminosos, logo merecem ir para a cadeia. Eu nunca faria tal reparo se o Estado tivesse uma conduta exímia e cumprisse. Aliás até pode parecer mal, quando eu digo que as disciplinas que mais gostei foram exactamente Direito Fiscal e Direito Penal Tributário. E fazer críticas deste género parece típico de alguém que ignora a Lei ou simplesmente nao quer saber dela pra nada. Mas como eu disse no inicío deste blog, não há nada que me entusiasme mais que o espírito crítico. A lei existe e sempre existirá, e nunca constituirá impedimento para que olhemos para as coisas de modo pragmático e as vejamos tal qual como são. Dura Lex, Sed Lex (mas é apenas para alguns)!   

domingo, 2 de outubro de 2011

Velho amigo

Profundidade
é coisa que falta nos dias que correm,
velho amigo,
é coisa que fica das nossas breves conversas
que eu gostaria de alongar.
E nem sabes como me entristece
saber que tudo são sombras,
vazias de sentir e de pensar,
que se constróiem à imagem das páginas de revistas
ou de programas de televisão
de fraca qualidade
que diverte uma massa de multidão empobrecida.
E onde deixaram o tempo
para privar
com aqueles que lhes dispensam o seu tempo?
Perderam no sofá
vazio daqueles que amam,
que queriam ser ouvidos
e não houve tempo.
Que queriam falar
e o tempo não chegou.
A nossa amizade
nunca se entregou
a tempos de decadência
ou a tendências vanguardistas.
Sempre vagueou
ao rumo
de conversas sábias e entardecidas
de crianças
que ambicionando ser crescidas
cresciam imensamente
no tempo e nas palavras
que souberam dispensar
um ao outro.
Numa época em que nos sentávamos
frente ao rio
numa qualquer manhã de inverno
e pensávamos no mundo entorpecido
que ainda dormitava perante nós.
Quando nos nossos dezasseis anos
tínhamos a lucidez
que hoje falta
com quem me cruzo.
E hoje recordo com saudade,
um tempo em que te ouvi
e tu me soubeste ouvir.

                                                              Dedicatória e Retribuição a um grande amigo,
                                                              André Tomé

                                                              Da tua sempre amiga,

                                                              Sara Lamy (2/10/2011)
                                                          

sábado, 1 de outubro de 2011

Bestialidade

Esta manhã saí cedinho de casa decidida a cumprir o meu habitual programa matinal de sábado, entro num autocarro da carris e rumo ao destino que pretendia. E a meio do caminho assisti a um episódio que se vai tornando cada vez mais usual nos dias que correm, o condutor do autocarro deparou-se com um obstáculo no seu caminho, um taxista que teve a gentileza de ir abrir a porta a uma senhora idosa, que tinha alguma dificuldade em caminhar, tomando-a pelo braço até à porta de sua casa. Com tudo isto o sr. motorista da carris perdeu 2 ou 3 preciosos minutos do seu tempo, o que o fez gesticular e vociferar de modo pouco simpático. Pergunto eu: Seria esta a atitude expectável de um ser humano?
E dei por mim a pensar que entre homens e bestas existem incríveis semelhanças. E devemos notar que vivemos nós numa época em que se apela e cultiva tanto a solidariedade, não obstante eu considerar que ser solidário em Portugal nos dias de hoje é mais um status social, do que um dever moral. Considerações à parte e analisando apenas os factos, concluo que qualquer besta é profunda e naturalmente mais sociável do que muitos homens.

                                                                                                                                   Sara Lamy