domingo, 29 de janeiro de 2012

Casamento Franco-Alemão

Bastante na linha de um filme bem conhecido, está precisamente a ser realizado um novo filme intitulado "Duas Europas e um Casamento", e os protagonistas, figuras bastante conhecidas, Nicholas Sarkozy e Angela Merkel. Esta é uma verdadeira história de amor incondicional e que transpõe fronteiras, de levar o povo europeu às lágrimas. Ela já não se contém de tanto contentamento e anuncia que vai apoiá-lo incondicionalmente, ainda antes de ele se ter candidatado às Presidenciais. Ele sorri com o afecto incondicional da Segunda "Dama de Ferro". E assim vai sendo embalada a Europa, de olhos postos neste casamento em que os seus protagonistas estão de tal modo entusiasmados, que parecem ter esquecido que existe uma Europa lá fora, para além do seu "nó" que é plantado e regado com maior fervor a cada dia que passa.

                                                                                   Sara Lamy 29/1/2012

Maria Antonieta

"Se o Povo não tem pão que coma brioches", este seria um bom slogan para colocar num cartaz de campanha por baixo da fotografia de caras bem conhecidas do nosso Governo Constitucional. Isto porque, a tecnocracia é boa enquanto não se converte em insensibilidade social e num pragmatismo cego elevado ao seu expoente máximo. Isto porque a austeridade é boa enquanto não se converte em miséria e num plano pensado a longo prazo. Porque afinal ainda não se percebeu que se "dinheiro gera dinheiro", então "crise gera crise". Estamos a entrar num estado de convulsão crónica e já todos se aperceberam, menos quem tem o poder de mudar essa tendência, o que é altamente perigoso. Pelos vistos, os manuais de História foram pouco úteis. E este poderia até ser um conto, algo burlesco, que começaria da seguinte forma: "Era uma vez, um país de pobrezinhos chamado Portugal, governado por um Sr. Primeiro-Ministro dos Impostos, por um Presidente da República com uma reforma humilde, e nesta bela história, que não terá certamente um final feliz, só falta a Maria Antonieta...", mas há já quem mande o Povo comer brioches. Resta esperar que sendo a história igual, não seja o destino semelhante. Mas não falta já certamente quem tenha vontade de mandar a "Maria Antonieta" de novo para a "guilhotina" e acabar com a (des)governança de "Luís XVI".

                                                                              Sara Lamy    28/1/2011

domingo, 22 de janeiro de 2012

A minha casa

Casas perfeitas
são casas desabitadas.
Eu gosto da desarrumação
típica de uma casa com vida
e a cada objecto que olhamos
fora do seu sítio
ou só no seu lugar habitual
quase podemos adivinhar
a vida de quem lá vive,
com os seus gostos e vícios
e os segredos
desarrumados
debaixo da colcha da cama
esperando imóveis
por quem os descubra.
E quem chega à minha casa
se olhar atentamente
sentirá decerto
o cheiro a café da manhã
com um misto a baunilha
da vela que arde na sala,
poesias dispersas
escritas por um pseudónimo
inventado por mim
numa mesa baixinha,
fotografias empoeiradas
que lembram boas amizades,
tons claros e pastel
entre peças arrojadas,
um chocolate aberto na mesa de jantar
ou não fosse vício meu,
as porcelanas, faianças e bordados
tecidos pelas mãos da família
em sedas e linhos egipcíos
fechados em baús antigos
e agora arejados
pelo fascínio da nova geração
que preserva a herança
bordada com carinho
pelas mães e avós
numa história
que hoje me enche a casa.
E se ainda acham que uma casa
pouco diz,
a minha decerto
conta tudo o que sou.

                               Sara Lamy
                               22/1/2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

África

Se soubesses
menino de pele escura
como gostava de saudar o sol
que nasce na tua terra
e ensinar-te as palavras
que abraçam a nossa pátria
que partilham culturas
mas não realidades.
E tu, menino,
que vives feliz e sorris
com a pobreza e fome
que destrói o teu país
trazes uma lição de vida
num olhar de criança crescida.
E ofereces tanto
sem ter nada para dar.
E quem te quer ajudar
pouco sabe
como construir sonhos
sob casas sem fundações,
em terra agreste,
de pessoas escuras e felizes
com o nada que têm
e o pouco que lhes dão.

                                       Sara Lamy
                                        21/1/2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ingenuidade

Ingénua
serei decerto
porque perdi tempo
a acreditar
que existe sempre um retorno
da boa vontade.
E hoje
mais frustrada
do que feliz
sei certamente que viveste bem
com tudo o que te dei.
E aos ingénuos
que se façam sábios.
E aos amigos
que se tornem calculistas.
E aos solidários
que não sejam mártires da boa vontade.
Porque hoje eu lamento
ter sido escrava
de uma imperiosa Razão
que grita dentro de mim:
o meu coração.

                                      Sara Lamy
                                      19/1/2012

domingo, 8 de janeiro de 2012

Bestas

E quando
já não cremos nos outros
e, outras vezes,
em nós mesmos,
compramos um cão
que é um fiel amigo
e sabemos, ao menos,
que esse não falhará,
mais não seja
por ter aprendido
a ser dominado por nós.
Não se choquem.
Afinal o que fazemos nós
todos os dias
quando tentamos dominar
ou somos
inconscientemente dominados?
Tratam-se pessoas
como animais
e domesticamos
a boa vontade de uns
e tentamos dominar
a perseverança de outros.
E os únicos que restam
são as bestas,
como eu,
que vivem de costas voltadas
para a sociedade
que se rói no seu interior
para nos ter
e corromper como os demais,
com uma sede incessante
de converter
os inconvertíveis.
Incondicionais para alguém
e inatingíveis para o resto.

                                      Sara Lamy
                                      8/1/2012

A senhora que fala com o gato

A senhora que fala
com o gato
e ninguém lhe responde
não porque não a oiça
no seu triste lamuriar
mas apenas
porque ignoram a solidão
de quem já não sabe o que diz.
E assim passa os seus dias
de cabeça pendida
à janela
falando
com quem não entende o que diz
mas a faz sentir feliz
no seu irracional existir.
E eu que escuto
digo-me entristecida
mas nada fiz
por mudar a solidão  não consentida
de quem já nada tem.
Apenas o seu gato
e palavras pendidas
à janela.

                                 Sara Lamy
                                 8/1/2012

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Norte

E enquanto caminhava
pelas ruas pintadas a negro
já era certeza em mim
que errei ao seguir-te.
E só na noite
o belo nasce,
numa cidade que no dia
é sombra.
E quando te avisto
assombrosamente feliz
nas margens do triste rio,
soube que esse dia
não contaria para a história.
E soube nesse dia
que certamente te perdia
nas margens de um rio
que nos atravessa
para morrer na Foz.
E quem sabe,
se um dia
nos iremos encontrar
onde o rio desagua no mar.

                    Sara Lamy 20/12/2011