sexta-feira, 20 de abril de 2012

Divagando

Caminhava eu distraidamente e feliz, após um dia de trabalho, e ao descer despreocupadamente a Fontes Pereira de Melo, dou comigo de olhos pregados na entrada do Público a pensar: "Como gostava de ser escritora, escrever tudo o que penso, sem pensar no que escrevo". Mas depois parei. E pensei.
Já escrevi para jornais, mas entre tantas regras, parâmetros, limites levados ao exagero em frases pré-defidas e caracteres contados, chego a achar um desprazer o facto de ter que escrever. Depois o pensamento fugiu-me para outro pensamento. Será que sou assim mesmo caracteristicamente desregrada, livre, sem amarras, e lembrei-me de uma amiga minha que me acusa constantemente da minha tendencial incapacidade para cumprir seja que regras for. E, por momentos, apavorei-me a pensar que eu que sempre me afirmei como uma conservadora inata, afinal, por vezes, mais parecia ter atitudes do típico inconformismo deliberado dos liberalistas. Não demorou muito para o pensamento saltar para outro, quem sabe talvez seja esta minha tendência de fazer de "advogada do Diabo", pele em que naturalmente me sinto bem, tão só porque insisto em apimentar um pouco mais esta minha forma de espontaneamente ser do "contra".
E acabei por pensar, sem me preocupar, que afinal não passo de uma escritora.

                                                              Sara Lamy  (21/4/2012)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Fraternidade



Quem sabe talvez
se não é
esta simples condição de ser português
que nos oferece
este sentimento inato de partir
de descobrir
o outrora descoberto
e de sentir
que todo o oceano é pouco
para nos impedir
de trilhar esta viagem
que apenas começa além fronteiras.
Quem sabe
se não é
esta fraternidade
gerada noutras terras
e noutras raças
que nos faz ir
sem olhar para trás
sentindo que afinal
nunca saímos do nosso lugar.
E no fim
é sem relutância que acredito
que é
num sentimento comum
que os lugares se fazem comuns.

                                         Sara Lamy  3/4/2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Pátria Minha


Pátria Entristecida
já não te reconheço
nos dias felizes
em que gente desalentada
se vai arrastando
sem saber sequer o que quer.
Pátria Querida
no tanto que prometeste
pouco tens para dar.
E hoje
pertenço a uma geração
que se desenrasca
e, por vezes,
se encosta,
e, às vezes,
até gosta
de se entreter
com o nada que tem pra fazer.
Pátria Dormente
de juventude despatriada
uns com tanto
e outros sem nada.
E o que me choca
não é o nada ter.
Mas a pobreza consentida
de uma nação empobrecida
que se deixou adormecer.
Adeus Pátria
até um dia
já não sou tua
nem tu és minha.

                                                Sara Lamy
                                                1/4/2012

terça-feira, 27 de março de 2012

Partida

Antecipo a tua chegada
como quem antecipa o que não quer ouvir.
Ficamos no ponto sem regresso
em que nada foi dito
pouco foi feito
e ambos sabemos
que lacunas por preencher
não são respostas definitivas.
E pouco sei como encontrar satisfação
em rasgos de felicidade
sempre por concluir.
E hoje acordei a pensar
como já fui feliz
quando trcávamos olhares sem querer
na falsa inocência
de quem finge não entender
que perdíamos tempo
no muito tempo que enganávamos.
E hoje não nos resta tempo
pra terminar as frases
que ficaram por dizer.
Porque afinal há manhãs de inverno
mesmo em dias de primavera.

                                Sara Lamy
                                27/3/2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

Espaço

O teu espaço é pouco para mim
e em mim sobra todo o espaço
que guardo para ti.
E todas as palavras são de mais
quando pouco resta que dizer,
quando não sabes ouvir,
e quando só te quero adormecer
no barulho todo que existe
entre ti e mim
que só se cala
depois da porta fechada do quarto
onde todas as palavras seriam poucas
para explicar
as nossas mãos entrelaçadas
no espaço que dizes não ter.

                                            Sara Lamy
                                            14/3/2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Inconformismo

Já fui simpatizante partidária, e até ferverosa apoiante, e quem me conhece bem sabe que a política me corria nas veias, e sempre defendi incansavelmente aquilo em que acredito, mas não vendo a "alma ao Diabo". Sinto-me altamente inconformada. Incomoda-me seriamente o Primeiro-Ministro deste país ter a displicência ou o mau grado de acusar os portugueses de pieguice. Começo a duvidar que tipo de patologia está a contagiar a classe política dirigente deste país, mas posso para já diagonosticar uma tendencial demência, porque existe claramente uma incapacidade ou distúrbio quanto à apreensão da realidade. E como dizia ontem a prof. Maria da Glória Garcia, em momentos de crise a única forma dos políticos vingarem é através da retórica. Mas, sem dúvida, essa é uma qualidade que não lhes assiste. Até porque o único senhor que ainda tem alguma é Ministro dos Negócios Estrangeiros, e o senhor que achava que a tinha está em França a tirar um curso. Nem só de retórica vive um país, mas a política sem retórica é um vazio de entusiasmo, por isso posso qualificar-me actualmente como apartidária, porque nem sequer é possível ter o prazer de não o ser.

                                                                         Sara Lamy  9/2/2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Direitos de Saque

    Ontem falava com um colega meu da minha antiga e saudosa academia, a FDL, e dizia ele: "Em Setembro, faço as malas e vou para Macau. Achas que fico cá para ganhar 700 euros por mês?"
    Macau, para quem não sabe, é uma região administrativa especial em que o seu financiamento é essencialmente produto dos impostos sobre o jogo, dado o elevado número de casinos que operam no seu território. Os impostos sobre o rendimento são vantajosos. E no final do ano, o Estado ainda arranja dinheiro para dar um "prémio" per capita, que apesar de não ser "chorudo", muitos "chorariam"  por recebê-lo por cá. Em 2012, esse prémio corresponderá a uma quantia aproximada de 800 euros por pessoa. Parece ser uma quantia razoável para gozar umas férias confortáveis num qualquer país vizinho, como a Tailândia ou a Malásia.
     Então e alguém sabe como se chamam os prémios per capita atribuídos em Portugal no final do ano? Direitos de saque, são prémios remuneratórios atribuídos pelos cidadãos a favor do Estado. Para mais informações, contacte o Ministério das Finanças onde poderão esclarecê-lo acerca das diversas modalidades de pagamento à sua disposição.

                                                                     Sara Lamy 1/2/2012