Casas perfeitas
são casas desabitadas.
Eu gosto da desarrumação
típica de uma casa com vida
e a cada objecto que olhamos
fora do seu sítio
ou só no seu lugar habitual
quase podemos adivinhar
a vida de quem lá vive,
com os seus gostos e vícios
e os segredos
desarrumados
debaixo da colcha da cama
esperando imóveis
por quem os descubra.
E quem chega à minha casa
se olhar atentamente
sentirá decerto
o cheiro a café da manhã
com um misto a baunilha
da vela que arde na sala,
poesias dispersas
escritas por um pseudónimo
inventado por mim
numa mesa baixinha,
fotografias empoeiradas
que lembram boas amizades,
tons claros e pastel
entre peças arrojadas,
um chocolate aberto na mesa de jantar
ou não fosse vício meu,
as porcelanas, faianças e bordados
tecidos pelas mãos da família
em sedas e linhos egipcíos
fechados em baús antigos
e agora arejados
pelo fascínio da nova geração
que preserva a herança
bordada com carinho
pelas mães e avós
numa história
que hoje me enche a casa.
E se ainda acham que uma casa
pouco diz,
a minha decerto
conta tudo o que sou.
Sara Lamy
22/1/2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
sábado, 21 de janeiro de 2012
África
Se soubesses
menino de pele escura
como gostava de saudar o sol
que nasce na tua terra
e ensinar-te as palavras
que abraçam a nossa pátria
que partilham culturas
mas não realidades.
E tu, menino,
que vives feliz e sorris
com a pobreza e fome
que destrói o teu país
trazes uma lição de vida
num olhar de criança crescida.
E ofereces tanto
sem ter nada para dar.
E quem te quer ajudar
pouco sabe
como construir sonhos
sob casas sem fundações,
em terra agreste,
de pessoas escuras e felizes
com o nada que têm
e o pouco que lhes dão.
Sara Lamy
21/1/2012
menino de pele escura
como gostava de saudar o sol
que nasce na tua terra
e ensinar-te as palavras
que abraçam a nossa pátria
que partilham culturas
mas não realidades.
E tu, menino,
que vives feliz e sorris
com a pobreza e fome
que destrói o teu país
trazes uma lição de vida
num olhar de criança crescida.
E ofereces tanto
sem ter nada para dar.
E quem te quer ajudar
pouco sabe
como construir sonhos
sob casas sem fundações,
em terra agreste,
de pessoas escuras e felizes
com o nada que têm
e o pouco que lhes dão.
Sara Lamy
21/1/2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Ingenuidade
Ingénua
serei decerto
porque perdi tempo
a acreditar
que existe sempre um retorno
da boa vontade.
E hoje
mais frustrada
do que feliz
sei certamente que viveste bem
com tudo o que te dei.
E aos ingénuos
que se façam sábios.
E aos amigos
que se tornem calculistas.
E aos solidários
que não sejam mártires da boa vontade.
Porque hoje eu lamento
ter sido escrava
de uma imperiosa Razão
que grita dentro de mim:
o meu coração.
Sara Lamy
19/1/2012
serei decerto
porque perdi tempo
a acreditar
que existe sempre um retorno
da boa vontade.
E hoje
mais frustrada
do que feliz
sei certamente que viveste bem
com tudo o que te dei.
E aos ingénuos
que se façam sábios.
E aos amigos
que se tornem calculistas.
E aos solidários
que não sejam mártires da boa vontade.
Porque hoje eu lamento
ter sido escrava
de uma imperiosa Razão
que grita dentro de mim:
o meu coração.
Sara Lamy
19/1/2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
Bestas
E quando
já não cremos nos outros
e, outras vezes,
em nós mesmos,
compramos um cão
que é um fiel amigo
e sabemos, ao menos,
que esse não falhará,
mais não seja
por ter aprendido
a ser dominado por nós.
Não se choquem.
Afinal o que fazemos nós
todos os dias
quando tentamos dominar
ou somos
inconscientemente dominados?
Tratam-se pessoas
como animais
e domesticamos
a boa vontade de uns
e tentamos dominar
a perseverança de outros.
E os únicos que restam
são as bestas,
como eu,
que vivem de costas voltadas
para a sociedade
que se rói no seu interior
para nos ter
e corromper como os demais,
com uma sede incessante
de converter
os inconvertíveis.
Incondicionais para alguém
e inatingíveis para o resto.
Sara Lamy
8/1/2012
já não cremos nos outros
e, outras vezes,
em nós mesmos,
compramos um cão
que é um fiel amigo
e sabemos, ao menos,
que esse não falhará,
mais não seja
por ter aprendido
a ser dominado por nós.
Não se choquem.
Afinal o que fazemos nós
todos os dias
quando tentamos dominar
ou somos
inconscientemente dominados?
Tratam-se pessoas
como animais
e domesticamos
a boa vontade de uns
e tentamos dominar
a perseverança de outros.
E os únicos que restam
são as bestas,
como eu,
que vivem de costas voltadas
para a sociedade
que se rói no seu interior
para nos ter
e corromper como os demais,
com uma sede incessante
de converter
os inconvertíveis.
Incondicionais para alguém
e inatingíveis para o resto.
Sara Lamy
8/1/2012
A senhora que fala com o gato
A senhora que fala
com o gato
e ninguém lhe responde
não porque não a oiça
no seu triste lamuriar
mas apenas
porque ignoram a solidão
de quem já não sabe o que diz.
E assim passa os seus dias
de cabeça pendida
à janela
falando
com quem não entende o que diz
mas a faz sentir feliz
no seu irracional existir.
E eu que escuto
digo-me entristecida
mas nada fiz
por mudar a solidão não consentida
de quem já nada tem.
Apenas o seu gato
e palavras pendidas
à janela.
Sara Lamy
8/1/2012
com o gato
e ninguém lhe responde
não porque não a oiça
no seu triste lamuriar
mas apenas
porque ignoram a solidão
de quem já não sabe o que diz.
E assim passa os seus dias
de cabeça pendida
à janela
falando
com quem não entende o que diz
mas a faz sentir feliz
no seu irracional existir.
E eu que escuto
digo-me entristecida
mas nada fiz
por mudar a solidão não consentida
de quem já nada tem.
Apenas o seu gato
e palavras pendidas
à janela.
Sara Lamy
8/1/2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
A Norte
E enquanto caminhava
pelas ruas pintadas a negro
já era certeza em mim
que errei ao seguir-te.
E só na noite
o belo nasce,
numa cidade que no dia
é sombra.
E quando te avisto
assombrosamente feliz
nas margens do triste rio,
soube que esse dia
não contaria para a história.
E soube nesse dia
que certamente te perdia
nas margens de um rio
que nos atravessa
para morrer na Foz.
E quem sabe,
se um dia
nos iremos encontrar
onde o rio desagua no mar.
Sara Lamy 20/12/2011
pelas ruas pintadas a negro
já era certeza em mim
que errei ao seguir-te.
E só na noite
o belo nasce,
numa cidade que no dia
é sombra.
E quando te avisto
assombrosamente feliz
nas margens do triste rio,
soube que esse dia
não contaria para a história.
E soube nesse dia
que certamente te perdia
nas margens de um rio
que nos atravessa
para morrer na Foz.
E quem sabe,
se um dia
nos iremos encontrar
onde o rio desagua no mar.
Sara Lamy 20/12/2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Cegamente
E a ti,
que me olhaste
cegamente
no meu simples existir,
me deste tudo
no nada
que foi tudo o que te soube dar.
Perdoa-me.
Sara Lamy(1/12/2011)
que me olhaste
cegamente
no meu simples existir,
me deste tudo
no nada
que foi tudo o que te soube dar.
Perdoa-me.
Sara Lamy(1/12/2011)
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